Trilogia Origens: Psicodelia, Prog e Hard Rock na Obra de Alessandro Aru

Análise completa da trilogia Origens, de Alessandro Aru, explorando psicodelia brasileira, hard rock e rock progressivo em três álbuns conceituais que unem peso, lirismo e maturidade artística.

Trilogia Origens de Alessandro Aru com capas dos álbuns Origem, Adaptação e Destino na psicodelia brasileira
Trilogia Origens (2016–2019), de Alessandro Aru — três atos da psicodelia brasileira contemporânea entre hard rock, prog e lirismo conceitual.

Introdução

Ainda estou me recuperando da impressionante viagem musical que o baixista Alessandro Aru proporciona em “Origens”, seu primeiro trabalho solo, e a necessidade de escrever sobre ele é compulsória.

Aos ouvidos atentos, a psicodelia brasileira é um dos mais saborosos movimentos de nossa música. Mesmo com seu auge entre o fim dos anos 1960 e meados da década seguinte, as cores lisérgicas nunca foram apagadas da música brasileira, e em alguns casos se intensificaram, como acontece com o projeto “Origens”, idealizado pelo músico alagoano Alessandro Aru, onde ele desfila toda sua técnica influenciada por nomes clássicos do Rock, como John Paul Jones (Led Zeppelin), John Entwistle (The Who) e Jack Bruce (Cream), e usa toda a sua bagagem dentro do rock psicodélico brasileiro em bandas como Mopho, Cores Astrais, Santo Samba, Cachorro Urubu e Messias Elétrico.

Como herdeiro da psicodélica nordestina, Alessandro nos apresenta o segundo capítulo de sua ousada trilogia de álbuns conceituais que se entrelaçam em verso e música. A trilogia“Origens” celebra esta trajetória de vinte anos pelas estradas roqueirasreunindo vários amigos, integrantes de diversas bandas do cenário alagoano, em torno de um projeto desenvolvido a partir de composições do baixista (algumas delas compostas originalmente no baixo elétrico), resultando numa uma obra conceitual concisa, uma verdadeira suíte em seis partes misturando psicodelia, bucolismo, folk, progressivo, e Hard Rock, com elementos roqueiros típicos dos ares brasileiros pré-1982.

Neste sentido, vemos entremeados às influências estrangeiras, nomes como A Bolha, Casa das Máquinas, e Necro, dentro da ciclotímica variação de proto-metal e psicodelia progressiva, sendo que mesmo nas faixas mais acessíveis existe um diferencial.

Origens – Parte 1: Origem

“Parte I” abre o álbum com um Heavy Rock de vocais melodiosos, remetendo aos Mutantes, e com aquela timbragem de aconchego febril e solo psicodélico. Por aqui já temos a dimensão da aura mística advinda da timbragem retrô, de teclados borbulhantes e cacoetes de Classic Rock, com um fuzz mais explícito aqui, e uma viagem mais progressiva acolá, tudo com muita energia e organicidade.

Este primeiro momento se mostra relativamente mais acessível, assim como acontecerá no desfecho folk da sexta parte, nas vocalizações finais da quarta parte, e na stoneana “Parte V”, apesar de sua tempera Avant Garde à lá Frank Zappa.

Outros momentos são mais intrincados, de geometria assimétrica nos arranjos e nos andamentos variados, numa explosão de texturas e pesos, linhas vocais calorosas entoado versos etéreos e contemplativos em português, bem exemplificados nas partes “II” (uma longa faixa com cacoetes progressivos e metálicos, quase um proto-metal, de desfecho emocional brilhante), e “III” (bem mais rock n’ roll, com pegada aos moldes do Deep Purple, pelos teclados incisivos, e passagens viajantes).

O trabalho de guitarras, com fraseados cheios de personalidade invocando espíritos conjurados inicialmente pela santa trindade Zappa-Beck-Paige, é um dos destaques instrumentais, guiando as composições que possuem uma liberdade que beira o flerte jazzístico em certos momentos de mergulho em jam sessions (exatamente quando as composições inflamam com mais intensidade).

Não obstante, a gaita em comunhão à guitarra limpa da “Parte IV”, melhor do trabalho, mostra que o Blues está mais presente por aqui do que o denso caldo musical deixa transparecer, numa composição acachapante, com guitarras vertiginosas, vocais hipnotizantes, e flertes southern.

Nesta dinâmica, o conjunto da obra consegue ser emocional e bem trabalhado por uma viagem sem rumo ao longo da alta classe instrumental de sonoridades envolventes e viajantes, visualmente resumidas na capa altamente lisérgica.

Pode até parecer que não seguem formalidades ou padrões estílicos, mas esta alucinada viagem roqueira tem regras rígidas de timbragens, evoluções, e até mesmo de assimetrias estruturais (por mais paradoxal que isso possa parecer), refletindo um projeto maduro, pesado, progressivo, mas também psicodélico.

“Origens, Pt. 1” é a primeira parte de uma trilogia, nos deixando instigados pelo que virá na sequência. E segundo o próprio Alessandro, a segunda parte pode sair ainda este ano.

Origens – Parte 2: Adaptação

“Adaptação”, como fora batizada esta segunda parte, continua a proposta de reunir músicos em torno de uma personalidade que mescla hard rock, rock progressivo psicodelia com textura valvulada e aroma orgânico tipicamente brasileiro.

A lista de convidados de  “Adaptação” forma um time de respeito, composto por nomes como Pedro Salvador, Ronaldo Rodrigues, Daniel Gontijo, Daniel Queiroz, Dinho Zampier, Fernando Coelho, Fred Hollanda, Hélio Pisca, Jeff Joseph, João Paulo, Leonardo Luiz, Nardel Guedes, Ney Guedes, Phillipe Hollanda, Railton Sarmento, Renan Carvalho, Ricardo Lopes, e Rogério Cavalcante, que emprestaram ideias e suas personalidades paras as interpretações das cinco composições aqui presentes.

De fato, como a arte de Jonathan Melo nos faz inferir, “Adaptação” é uma continuação musical de “Origens, Pt. 1”, mas agora com a experiência da primeira parte na bagagem, tudo soa ainda mais coeso, liberto, solto e sincero. A faixa de abertura, “Acordar”, por exemplo, consegue te emocionar com menos de trinta segundos de clima orvalhado e gaita “preguiçosa”, até desaguar num hard psicodélico cheio de melodias cativantes e andamentos viajantes.

Por esse início, ficam claros dois pontos. Primeiro que a preocupação com os arranjos contínua a mesma, sendo que cada movimento vem talhado aos detalhes dentro de uma dinâmica viajante que sobrepõe camadas de texturas, sentimentos e estilos, indo das escolas nacionais e estrangeiras com desenvoltura e eficiência.

Outra prova disso está na extasiante “Adaptação Pt. 1”. Pelos deuses, que faixa é essa! Uma opereta psicodélica de mais de onze minutos que funde Jethro Tull e Pink Floyd com psicodelia nordestina e o Clube da Esquina, com melodia, peso, tempero folk, sabor de rock clássico, tudo bem aconchegado numa cama de teclados que ondula pelos arranjos conduzidos com altíssimo nível técnico e muito sentimento. Aquele tipo de composição que retira elogios do coração e emociona a alma!

O segundo ponto reside no fato de que indiscutivelmente a proposta vem mais pesada neste segundo capítulo. A faixa ” O Céu e o Inferno” é um belo exemplo dessa observação, com um riffão encorpado à lá Black Sabbath cortando sua sonoridade típica, dando mais peso e adrenalina, assim como veremos em “Adaptação Pt. 2”, guiada pelos teclados mágicos do mestre Ronaldo Rodrigues, e desenvolvida como se o King Crimson ou o EL&P se misturassem ao Deep Purple. Não é de estranhar que tenhamos as guitarras de Pedro Salvador, da banda Necro, dando o tom destas composições.

Ao contrário do que acontece com inúmeros discos com esta excelência musical, “Adaptação” não intimida pela complexidade, pois ela é usada como parte de um todo que cativa pela sinceridade de sentimentos que sustenta as composições. Mesmo que elaborados, os arranjos servem ao rock n’ roll, tornando o todo palatável mesmo aos ouvidos não acostumados às peripécias progressivo-psicodélicas.

Isso fica ainda mais evidente em “Éis o que És”, uma faixa intrincada, mas guiada por guitarras incisivas, que chegaram a me lembrar algo do rock setentista argentino, mesclado aos mandamentos do rock clássico. Esse acentuado sabor roqueiro fortalece ainda mais o dèjá vu que toma conta da proposta, mas sem soar monótono em sua sua veia retrô.

Ainda podemos perceber que Alessandro está mais confortável e solto nesta segunda parte da trilogia, ousado em suas linhas de baixo, ampliando ainda mais os horizontes musicais das composições do projeto, pois mesmo que aparente uma direcionamento mais direto dentro do rock, os detalhes estão aqui, desde uma simples voz de criança no abrir do trabalho, até as linhas de violão que antecipam o teclado que o fecha!

Só espero que este trabalho, junto ao primeiro, não tenha que esperar por duas ou três décadas para ser reverenciado dentro da música nacional com aconteceu com muitos dos nomes associados à “primeira turma” de nossa psicodelia, afinal, esse disco é uma obra-prima que precisa ser consumida! Várias vezes, por sinal, pois em cada uma delas seremos atingidos de modos e por motivos diferentes. Aliás, como acontece com verdadeiras obras de arte.

Emocionante!

Origens – Parte 3: Destino

Se Origem representava o sopro inaugural e Adaptação o peso da travessia, é em “Destino” que Alessandro Aru encerra sua trilogia com maturidade e consciência de fechamento. Lançado em 2019, o terceiro capítulo não soa como ruptura, mas como síntese — uma despedida serena, porém intensa, de um ciclo iniciado em 2015 entre jams despretensiosas que se transformaram em obra conceitual sólida.

Musicalmente, “Destino” preserva o eixo blues-hard-progressivo que sempre sustentou o projeto, mas agora com maior equilíbrio entre peso e contemplação. A base continua ancorada em riffs encorpados e seções rítmicas densas, evocando ecos de Uriah Heep e Black Sabbath nas passagens mais robustas, enquanto momentos etéreos mantêm a psicodelia como elemento estruturante da narrativa sonora.

A breve “Olares”, única composição não assinada por Aru, abre o disco de forma quase ritualística. A viola de dez cordas conecta o trabalho a uma ancestralidade simbólica, preparando o terreno para a expansão progressiva que se segue. É uma introdução enxuta, mas conceitualmente forte.

“Saia de Si para Lá” já revela a ambição estrutural do álbum. Com quase nove minutos, alterna camadas de synth, guitarras entrelaçadas e mudanças de andamento típicas do prog setentista, mas filtradas por uma sensibilidade brasileira evidente. O baixo não apenas sustenta: conduz melodicamente, dialogando com as vozes e criando tensão até a resolução emocional do refrão.

A suíte fragmentada “Super Delírio Atemporal”, distribuída em três partes ao longo do disco, funciona como eixo conceitual. As três peças amarram a narrativa com atmosferas que variam entre introspecção e expansão cósmica. Mellotron, lap steel e texturas flutuantes reforçam essa sensação de suspensão temporal, sugerindo que o “destino” aqui é menos ponto final e mais estado de consciência.

“Muita Calma” surge como momento lírico central. Entre piano, slide e ambiência folk-blues, a canção ecoa como conselho existencial dentro do conceito maior da trilogia. Já “Uníssona é a Busca” apresenta um clima mais denso, quase enevoado, sustentado por órgãos e sintetizadores analógicos que reforçam a psicodelia de raiz.

O ápice conceitual é a faixa-título “Destino”, uma suíte de quase onze minutos que sintetiza o percurso inteiro. Alternando trechos contemplativos com explosões instrumentais, a composição trabalha contrastes entre piano, hammond e riffs pesados, enquanto a letra aponta para desapego, perdão e transcendência. É aqui que o início, meio e fim se fundem.

“Todo o Céu Colorido”, mais concisa, funciona como respiro simbólico antes do fechamento definitivo da trilogia. O horizonte sugerido na letra reforça a ideia de ciclo que se refaz — não como repetição, mas como transformação.

Mesmo com a presença de diversos convidados, o disco mantém unidade. A produção orgânica, com textura quente e levemente retrô, reforça a identidade construída desde o primeiro capítulo. Se nos álbuns anteriores havia inquietação, aqui há domínio. A complexidade permanece — nas mudanças de tempo, nas camadas instrumentais, nas assimetrias estruturais — mas tudo soa resolvido, menos ansioso e mais consciente.

“Destino” encerra a trilogia com peso, emoção e coerência estética. Não é apenas o fim de um projeto, mas a confirmação de uma identidade artística consolidada. Um desfecho maduro, harmonioso e profundamente honesto.

Emocionante — talvez da forma mais serena possível.

Por Fim

A trilogia Origens consolida Alessandro Aru como um dos nomes mais interessantes da psicodelia brasileira contemporânea. Do frescor inaugural de Origem, passando pela densidade inquieta de Adaptação, até a maturidade harmônica de Destino, o projeto revela coerência estética, ambição conceitual e personalidade sonora própria.

A fusão entre blues cru, hard rock, progressivo e elementos nordestinos não soa nostálgica, mas viva e necessária. Trata-se de uma obra que respeita o passado sem se prender a ele, construída com técnica, sentimento e visão artística.

Um trabalho que merece ser revisitados muitas vezes — como toda verdadeira arte.

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